FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA: CARACTERÍSTICAS GERAIS

Por Juliana Vannucchi

Quando se estuda a filosofia ocidental, é comum ter como ponto de partida uma abordagem histórica para que seja possível situar corretamente os diversos temas e os vários pensadores que existiram ao longo do tempo. Nesse contexto, podemos encontrar diferentes organizações da “linha do tempo” da filosofia, porém, apesar de divergirem em alguns pontos, todas elas possuem uma característica comum, que é demarcar seu nascimento na Grécia Antiga, com um grupo de pensadores chamados “Pré-socráticos” (séculos VI e V a.C) pelo fato de que antecederam Sócrates (ca. 469 a.C. ou 470 – 399 a.C) e, além disso, a filosofia socrática e a filosofia pré-socrática possuem enfoques distintos.

Ao estudarmos os primeiros pensadores do mundo grego, é normal nos perguntamos se foram realmente eles os criadores da filosofia, ou se ela já existia de alguma forma antes deles, afinal, sabemos que existiram civilizações antigas notáveis e com grandes realizações em áreas como a ciência e a arte. Assim, surge a pergunta: não teriam, portanto, esses outros povos, tido suas próprias filosofias? Para responder a essa questão, apresentamos  aqui um trecho da introdução do livro “Os Filósofos Pré-Socráticos” (1998, p.7) organizado pelo autor Gerd A, Bornheim: “Se compreendermos a Filosofia em um sentido amplo – como concepção de vida e de mundo -, podemos dizer que sempre houve Filosofia. De fato, ela responde a uma exigência da própria natureza humana; o homem, imerso no mistério do real, vive a necessidade de encontrar uma razão de ser para o mundo que o cerca e para os enigmas de sua existência. Neste sentido, todo povo, por primitivo que seja, possuíram concepção de mundo. Mas se compreendermos a Filosofia em um sentido próprio, isto é, como o resultado de uma atividade da razão humana que se defronta com a totalidade do real, torna-se impossível pretender que a Filosofia tenha estado presente em todo e qualquer tipo de cultura. O que a História nos mostra é exatamente o contrário: a Filosofia é um produto da cultura grega, devendo-se reconhecer que se trata de uma das mais importantes contribuições daquele povo antigo ao mundo ocidental”.

Conforme a exposição presente no trecho acima sugere, precisamos estar cientes de que civilizações antigas possuíam, de fato, estruturas específicas de pensamento e faziam suas próprias leituras de mundo e questionamentos existenciais – todas elas possuem, portanto, suas especificidades e, em vários âmbitos, seus respectivos valores e contribuições para a humanidade. Nesse âmbito, Russell (2017, p. 27) em sua obra História do Pensamento Ocidental faz um comentário interessante no que diz respeito ao uso da matemática entre gregos e egípcios: “Os egípcios tinham algum conhecimento matemático, porém apenas o necessário que para construírem as suas pirâmides ou medirem seus campos. Os gregos começaram a estudar essa matéria “pelo gosto de investigar (…)”. Essa passagem sintetiza bem as principais diferenças entre o legado grego e dos outros povos, especialmente em relação ao aspecto filosófico, inaugurado por esse último povo, e no qual prevalecia o aspecto intelectual. Os povos antigos, é claro, possuem seus méritos e seus feitos em inúmeros sentidos, entretanto, quando estudamos em particular a história e gênese da filosofia ocidental, devemos compreender suas que origens se dão, de fato, na Grécia Antiga, pois foi nesse cenário que, pela primeira vez, inaugurou-se uma maneira especial, profunda e inovadora de se relacionar, questionar e compreender o mundo, estruturada com base no intelecto: “Os gregos, de certo modo, inventaram a racionalidade porque as respostas que deram às suas perguntas eram um tipo novo de coisa mundo: conclusões raciocinadas”. (GARVEY; STANGROOM, p. 37, 2013).

Antes de prosseguirmos, há uma informação fundamental que deve, desde já, ficar clara ao leitor: das obras escritas pelos pré-socráticos, restaram apenas alguns fragmentos. Não há nenhum livro integral que algum dos filósofos desse período tenha escrito e que tenha chegado intacto até nós e esse detalhe é de extrema relevância para estudo da filosofia pré-socrática, uma vez que, de certa forma, a torna um pouco mais dificultosa.

Ademais. torna-se válido esclarecer que a importância desses pensadores, não se dá somente porque inauguraram a filosofia do ocidente, mas também porque contribuíram com descobertas e conhecimentos de outras áreas, tal como a astronomia e a matemática. Por isso, podemos considerar que foram verdadeiros visionários em relação ao tempo em que viveram, já que foram capazes de romper com a visão tradicional que prevalecia no momento, e instaurar uma nova forma de se observar a natureza e o mundo.

CONTEXTO HISTÓRICO:

Historicamente, no período em que a filosofia nasceu, a Grécia vivia um momento próspero, traçado por grande movimento comercial e pelas navegações. A esse respeito, Bornhein (1998, p.07), cita que “a florescente navegação e a rica atividade comercial das colônias jônicas da Ásia Menor punham-nas em contato com povos do Egito, da Fenícia e da Mesopotâmia”. Esse contato com outros povos pode ter inspirado os gregos em diversos aspectos e proporcionado uma aura propicia para o surgimento da filosofia. Também há autores e fontes que ressaltam que uma das principais influências para os primeiros passos da filosofia, teria sido o surgimento do alfabeto ou, então, outros citam a democracia, que seria o “governo do povo”, prática que visava a igualdade e que era uma das principais (talvez, até, a principal) características das cidades-estado da Grécia.

Assim sendo, como é possível notar, o surgimento da filosofia envolve aspectos históricos diferentes e para descrever esse momento, geralmente usa-se o termo “milagre grego” para expressar esse rico contexto histórico que existia no referido período. Tal termo é bastante recorrente em inúmeros livros sobre o assunto, tanto nos de cunho introdutório e didáticos, quanto nos mais aprofundados.

E claro, não podemos deixar de mencionar um dos fatores mais marcantes dessa época: o mundo grego era essencialmente explicado pela mitologia, que consistia numa forma de conhecimento através da qual o ser humano compreendia, interagia e atribuía sentido ao mundo. Embora a mitologia forneça vias distintas da filosofia para explicar a realidade, ela também é muito importante e permanece encantando e despertando a atenção de muitas pessoas. A mitologia consiste, em suma, num conjunto de alegorias que visam explicar vários aspectos da realidade, da natureza, do homem e do universo. Para isso, muitas vezes surgem seres e mundos fantásticos, que se encontra em planos dimensionais divergentes deste que habitamos. Não apenas a civilização grega, mas muitos outros povos da antiguidade possuíam suas narrativas mitológicas particulares. Todas carregavam certas singularidades, embora possamos notar também estruturas comuns em muitas delas.

QUAL É A NATUREZA FUNDAMENTAL DAS COISAS?

Todos os filósofos pré-socráticos eram movidos por uma busca comum: perguntavam-se de que eram feitas as coisas. Assim, almejavam encontrar uma (ou mais de uma) substância natural, fundamental e primordial que fosse a origem de tudo. Esse (ou esses) elemento (s) era (m) por eles chamado (os) de “arché” e os pensadores gregos desse período, divergiram em relação à definição dessa substância (a diante, iremos explorar melhor essas diferenças propostas por alguns dos principais filósofos pré-socráticos). Aqui, faz-se importante citar que os pré-socráticos costumam ser divididos em “monistas” e “pluralistas”, e é muito comum encontrar essa terminologia em livros sobre o assunto. Os primeiros são os que acreditam e identificam a arché como sendo um único elemento (por exemplo, Tales de Mileto, a identificava como sendo a água) e os segundos, são os que atribuíam a mais de uma substância (como, por exemplo, Empédocles, que acreditava haver quatro fundamentos primordiais para a natureza: a água, a terra, o fogo e o ar).

Mas de maneira geral, embora ao longo do tempo esses filósofos tenham identificado elementos diversos como sendo a arché, todos eles se empenharam em fornecer explicações racionais, naturais, ordenadas e sistemáticas a respeito do universo, explicações essas que se distanciavam das respostas divinas que até então eram fornecidas pela religião grega da época, e que para esse grupo de pensadores já não eram mais satisfatórias para explicar as origens do mundo e a funcionalidade da natureza. Devido às características filosóficas citadas, é comum que estes filósofos sejam chamados de “naturalistas”, uma vez que o foco de suas filosofias era justamente a busca de um elemento material e natural que fosse a origem do mundo, sendo que para essa realizar essa busca, suas reflexões partiam da physis, isto é, da natureza e das variadas substâncias físicas que a compõe. Conforme Aristóteles registrou, os pré-socráticos buscavam: “Um princípio em forma de matéria que fosse o único princípio de tudo. Elemento do qual tudo provém e a que tudo se reduz…”.

Geralmente, dividi-se esse período filosófico e seus representantes da seguinte forma: escola jônica, que corresponde ao início da filosofia, da qual faziam parte Tales de Mileto (segundo Aristóteles, o “primeiro filósofo”) e Anaximandro de Mileto; a escola atomista, composta por Demócrito de Abdera e Leucipo; a escola pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos; a eleata de Xenófanes, Parmênides e Zenão e a mobilista, de Heráclito de Éfeso.

Esse grupo de filósofos gregos inaugurou a história do pensamento ocidental, e seu legado atravessou os tempos, permanecendo relevante e até os dias de hoje despertando interesse em muitas pessoas. Grandes pensadores póstumos como Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Martin Heidegger (1889-1976), que se atentaram e valorizaram os pré-socráticos, mencionando-os em suas obras. Nietzsche, aliás, chegou a escrever que “outros povos nos deram deuses, os gregos nos deram sábios”. Ou seja: outras civilizações compreendiam o mundo através de explicações sobrenaturais, enquanto os gregos ofereceram explicações racionais que não dependiam de sistemas mitológicos.

Referências bibliográficas:

A.A.Long. Primórdios da Filosofia Grega. Aparecida: Idéias & Letras, 2008.

BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998.

BOTELHO, José. A Odisséia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013.

FILHO, Euclides Araújo dos Santos. Alguns Tópicos da Escola Pitagórica. UFBA (Universidade Federal da Bahia). Salvador: 2016.

OSBORNE, Catherine. Filosofia Pré-Socrática. Porto Alegre: L&PM, 2013. (Coleção L± Pocket Vol. 1114).

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

RUTHERFORD, Ward. Pitágoras: Amante da Sabedoria. Editora: Mercuryo, 1991

1 thought on “FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA: CARACTERÍSTICAS GERAIS

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      Obrigado pela partilha de sabedoria.
      Grato.

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      (派对) 本来就是“宴会、聚会”的意思,从词义上和咱们的聚餐没有本质上的区别。

      西方的派对和咱们聚餐之间的共同点都是为了聚会、交流和快乐,区别还是在于习俗和文化上。

      西方的派对,一般都有明确的主题,生日派对、庆功派对、节日派对、宗教派对、党派派对、外交派对、私人派对、开放派对,甚至葬礼也有派对。

      咱们的聚会更是司空见惯,除了上述的西方派对主题之外,咱们中国人请客吃饭可以有主题,也可以不需要主题,就是楞聚餐,有闲有钱即可。

      从文化的视角来看,西方的派对以娱乐和社交为主要特征,不管什么主题,派对一般具有更加灵活的组织方式和形式,可以在公寓,也可以在大厅,可以在门前草坪,也可以在荒郊野地,既可以围坐餐桌,也可以烧烤自助,有些各种聊天和讨论,还常有不少娱乐小游戏和舞会助兴
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