MARCO AURÉLIO: A VIDA E A OBRA DO IMPERADOR FILÓSOFO

Por Juliana Vannucchi

INFÂNCIA E JUVENTUDE:

Marco Aurélio, também conhecido como o “imperador filósofo”, é tido como um dos maiores imperadores que o Império Romano já teve.

Nasceu em 26 de abril de 121, em Roma. Seus pais eram Ânio Vero e Domícia Lucila. O pai não teve muita influência sobre o filho, ao contrário da mãe que, segundo o próprio Marco Aurélio, lhe ensinou a importância de se levar uma vida correta e simples. O amor entre mãe e filho era profundo e a admiração e respeito que ele tinha por ela eram realmente grandes.

Os pais de Marco Aurélio eram membros de família aristocrata, morreram quando ele ainda era jovem e, então, ele foi adotado por um tio, chamado Antonino Pio, imperador de Roma que sucedeu a Adriano.

Marco Aurélio ficou noivo da filha de Antonino com sua esposa, Ânia Galéria Faustina. A noiva tinha o mesmo nome da mãe e era aproximadamente dez anos mais nova que Marco Aurélio. O casamento aconteceu em 145. Ao logo dos anos, Faustina lhe daria treze filhos, no entanto nem todos chegariam à idade adulta. Antonino morreu aos 76 anos, no dia 7 de março de 161. Com esse acontecimento, Marco Aurélio se tornaria o novo imperador de Roma.

Vivendo com Antonino, a quem muito se afeiçoou, foi aos poucos se preparando para ser o próximo na linha de sucessão. Admirava o pai que o havia adotado, observando nele inúmeras qualidades que o encantavam, pois Antonino governava com justiça, gentileza, serenidade, simplicidade e sabedoria.

Ao conviver com o pai adotivo, Marco Aurélio absorveu essas virtudes que muito soube colocar em prática durante o seu governo.

Quando ainda era bem novo, teve contato com a língua grega, pois em famílias mais cultas era costume usar também esse idioma e não somente o latim. Aprendeu geometria, música, literatura. Quando menino, gostava muito de ler e desde criança demonstrava ter uma postura séria e responsável. Teve como tutor Marco Cornélio Frontão, que era um orador de muito talento com o qual Marco Aurélio desenvolveu fortes laços de amizade e com quem por muito tempo trocaria correspondências.

O IMPERADOR MARCO AURÉLIO E ALGUNS DE SEUS GRANDES FEITOS:

No entanto, Marco Aurélio não governaria sozinho. Ele tinha um irmão adotivo, chamado Lúcio Vero, que também tinha sido adotado por Antonino na ocasião em que perdeu o pai, e os dois tornaram-se co-imperadores, ou seja, exerceriam o poder juntos. A população de Roma mostrou-se contente com os dois novos imperadores. Marco Aurélio detinha nas mãos maior poder do que o seu irmão e não se sabe exatamente qual a razão disso. É bem provável que Lúcio não apresentasse tanta inclinação para exercer o poder como o grande Marco Aurélio.

Marco Aurélio e seu irmão eram muito diferentes. Lúcio era dez anos mais jovem que o irmão e se sentia atraído por jogos de circo, por teatro, por prazeres. Em certa época, consta que chegou até mesmo a levar uma vida desregrada. Porém, sua conduta em relação às tropas por ele guiadas nas diversas ocasiões em que isso foi necessário não deixou nada a desejar, pois Lúcio se mostrava piedoso e justo.

Durante o reinado de Marco Aurélio, o Império romano foi alvo de invasões. Ao Norte, houve inúmeros confrontos com os germanos e na parte oriental do seu império, aconteceram guerras contra os partas. Não se sabe certamente quais foram as razões que levaram às invasões dos germanos, mas fontes dizem que o mais provável é que estivessem em busca de um local com terras mais férteis e com clima mais ameno. As invasões duraram muitos anos.

Em 166, os romanos conseguiram uma vitória contra os partas. Marco Aurélio e Lúcio Vero, então, receberam o título de pais da pátria, em meio a diversas comemorações oficiais.

Porém, a calmaria durou pouco, pois não muito tempo após festejos, mas dois povos, os langobardos e os úbios, passaram a oferecer perigo na fronteira do Danúbio. Novamente, os romanos saíram vitoriosos.

Ainda assim, Marco Aurélio achou melhor ir pessoalmente até a Germânia. No entanto, foi preciso que ele adiasse a sua viagem, pois surgiu uma peste em Roma, que durou muito tempo e fez um grande número de vítimas.

Era um momento realmente muito delicado para Marco Aurélio pensar em se ausentar e havia pessoas que temiam até que o fim do mundo estivesse próximo, tamanho era o temor da peste.

Apenas no ano de 168, os co-imperadores puderam realizar a viagem para o Norte. Durante o trajeto, muitos homens do exército morreram, certamente devido à peste. Com o número de homens reduzido, o que dificultaria a vitória na batalha, Marco Aurélio optou pela tentativa de negociar com alguns povos. Conseguiu assim deter os oponentes, mas sabia que qualquer paz era sempre frágil e não duraria muito tempo. Depois de os co-imperadores passarem em Aquileia o inverno de 168 e 169, Marco Aurélio achou que seria melhor mandar Lúcio de volta para Roma e o acompanhou numa parte do trajeto. Mas algo inesperado aconteceu: Lúcio, de uma hora para outra, ficou doente e poucos dias depois morreu, aos trinta anos de idade. Marco Aurélio fez questão de prestar ao irmão todas as tradicionais homenagens. Ele, com certeza, sentia um afeto verdadeiro por seu irmão adotivo. Em certa ocasião, em 163, durante um discurso oficial que fizera, chegou inclusive a falar sobre a confiança que tinha em Lúcio, além de fazer a ele inúmeros elogios. Surgiram diversos boatos a respeito da morte de Lúcio Vero. Alguns diziam que ele tinha sido morto pela própria esposa, Lucila, ou até mesmo por Faustina, esposa de Marco Aurélio. Falavam até que Lúcio tinha planos de assassinar o irmão, mas acabou sendo descoberto e foi envenenado antes de colocar seu plano em prática.  Mesmo estando ainda abalado pela perda de Lúcio Vero, pouco tempo depois Marco Aurélio casou sua filha viúva com um homem em quem ele depositava muita confiança. Esse homem já tinha bastante idade e se chamava Cláudio Pompeiano. O casamento ocorreu contra a vontade de Lucila e de Faustina.

Ainda em 169, outra triste perda atingiu a vida de Marco Aurélio, que foi a morte de um de seus filhos, Marco Ânio Vero, que tinha só sete anos de idade. O menino tinha um tumor e foi submetido a uma cirurgia, porém não conseguiu resistir.

Depois desses acontecimentos tão tristes, Marco Aurélio, que agora governava sozinho, mais uma vez se dirigiu à direção do Danúbio, para uma outra ofensiva contra os germanos. No entanto, dessa vez não conseguiu deter os inimigos que acabaram  invadindo algumas regiões da Itália.

Marco Aurélio ficou anos longe de Roma, tentando manter a paz na fronteira, mas sabia que, como de outras vezes, qualquer trégua conseguida seria apenas temporária.

Em 165, mais um golpe atingiu o imperador, que foi a morte de sua esposa Faustina, companheira de tanto tempo, aos 46 anos de idade. Não se sabe exatamente a causa de sua morte. No templo de Vênus e de Roma duas estátuas foram erguidas, sendo uma de Marco Aurélio e outra de sua esposa Faustina. O imperador sabia que mesmo com a tristeza pela partida de pessoas queridas, era preciso aceitar os fatos, e por isso seguia tentando governar com a seriedade e a serenidade de sempre.

Em 177, embora as estradas fossem aterrorizadas por alguns saqueadores, tudo parecia calmo. Entretanto, no ano seguinte, mais uma ofensiva foi necessária na região do Danúbio.

A MORTE DO IMPERADOR E SEU LEGADO:

Marco Aurélio, antes de sua partida para o local, providenciou que seu filho mais velho, Cômodo, de 17 anos, se casasse. Sua jovem esposa chamava-se Brútia Crispina. Além disso, nomeou filho com imperador, passando assim a governarem juntos.

Enfim, Marco Aurélio partiu para guerra, acompanhado de Cômodo. Pensava a todo custo em fazer acordos com os povos invasores e pensar em estratégias que pudessem afastá-los.

Em meio a tudo isso, ele ficou doente. Percebendo que não teria sua saúde de volta e vendo que a morte se aproximava, chamou Cômodo e pediu ao filho que não desistisse da guerra.

Aos 58 anos, ele faleceu. Era 17 de março de 180. Não há consenso a respeito da doença que matou imperador, mas é provável que tenha contraído a temida peste, sendo mais uma vítima desse terrível mal.

Foi sucedido por Cômodo, que não foi capaz de dar continuidade a tudo de bom que seu pai construíra como imperador. O filho governou até 192, ano em que morreu assassinado. Marco Aurélio governou por 20 anos. Colocava sempre os desejos e o bem- estar do povo acima de seus interesses. Foi o último dos cinco bons imperadores do Império Romano. Os considerados bons imperadores que governaram antes dele foram Nerva, Trajano, Adriano e Antonino.

As suas cinzas foram levadas para o mau mausoléu de Adriano, em Roma.

O grande Imperador filósofo Marco Aurélio tornou-se personagem de filmes famosos, como “A Queda do Império Romano”, de 1964, e “Gladiador”, de 2000.

A FILOSOFIA DO IMPERADOR MARCO AURÉLIO:

Marco Aurélio não se destacou apenas como um grandioso imperador romano, mas também deixou seu nome marcado na história da Filosofia.

Ele é considerado um filósofo estoico, ou seja, pertencente ao Estoicismo, que foi uma corrente filosófica do período helenístico. De maneira breve e simplificada, podemos entender que os estoicos buscavam alcançar a “ataraxia”, que era a imperturbabilidade da alma. Eles propunham uma série de princípios que visava conduzir a vida a um estado de tranquilidade interior e de aquisição da felicidade. Mas o Estoicismo, é claro, não se resume apenas a isso e é composto por vários outros aspectos. Essa corrente filosófica foi fundada pelo grego Zenão de Cítio e além dele e do próprio imperador romano, existiram outros importantes representantes, tal como é o caso de Epiteto e de Sêneca. 

Marco Aurélio é autor de uma obra chamada “Meditações”, que consiste numa compilação de seus pensamentos, sendo uma espécie de diário feito por ele ao longo de um período de tempo. Essa obra atravessou os séculos e até os dias de hoje é constantemente lida, estudada e possui um conteúdo no qual encontramos uma grande sabedoria de vida, que é capaz de inspirar muitas pessoas. Em suma, esse registro filosófico feito pelo imperador romano oferece uma série de preceitos pelos quais podemos tornar o nosso cotidiano mais agradável, sereno e menos denso. Mas apesar de fazer essa abordagem, os assuntos que são explorados ao longo das Meditações, de maneira geral são diversificados, e na obra encontram-se presentes reflexões sobre assuntos como a morte, as paixões, as virtudes, os vícios, a felicidade e outras questões. Seu formato é composto por algumas passagens curtas e outras mais longas e no decorrer desses escritos, Marco Aurélio vai refletido a respeito do que foi aprendendo ao longo da vida e o que pensa sobre o mundo e sobre a existência, sendo que durante esse percurso escrito, faz algumas menções a seus familiares, amigos, a outros indivíduos que o influenciaram e também menções sobre experiências pelas quais passou.

Vejamos a seguir, ainda que de maneira breve e simplificada, algumas meditações de Marco Aurélio:

No Livro II, o imperador nos aconselha a respeito de como executar nossas ações. Segundo ele, tudo que está ao nosso alcance deve ser feito com dignidade. Nesse sentido, devemos nos entregar a cada ação como se ela fosse a última. Ademais, precisamos ter a razão como guia, pois ela nos levará aos princípios corretos e divinos. Em nossas ações devemos também nos desfazer da hipocrisia e do egoísmo.

O pensador romano, ainda no Livro II, comenta que muitas pessoas se distraem com coisas que estão fora delas, ocupando-se assim de um número excessivo de atividades e questões, porém, focando em poucas coisas. Dessa maneira, a pessoas não mantém a concentração em ideias e metas específicas. Cabe aqui um diálogo entre essa meditação e um dos ensinamentos presentes no Manual de Epicteto, no qual o filósofo estoico aconselha que saibamos nos concentrar nas prioridades e diz que devemos evitar distrações que nos desviem de tais focos. Epicteto cita o seguinte exemplo: imagine que você está abordo de um navio e a embarcação faz uma parada afim de deixar os passageiros visitaram uma ilha. Você desce, deslumbra o local e se distraí com conchinhas e flroes. Essa distração pode ser nociva se você não escutar o chamado do capitão, anunciando que o navio está partindo… é preciso, portanto, ter cuidado para não perder a viagem, isto é, devemos saber quais são as prioridades cotidianas e depositar nelas a nossa atenção.

No Livro IV, Marco Aurélio nos orienta a carregarmos conosco duas dispoições: uma consiste em agir conforme a razão e a outra em ter alguém para nos corrigir, sendo que nesse caso, devemos ter abertura para mudar a forma de pensar se alguém se propuser a nos corrigir em algum aspecto.

Sua contribuição filosófica foi realmente grande e até hoje, quando se fala em Estoicismo, fala-se também no imperador romano Marco Aurélio, que através das Meditações se tornou um notável expoente dessa corrente de pensamento.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

AURÉLIO, Marco. Meditações. São Paulo: Edipro, 2019.

GRIMAL, Pierre. Marco Aurélio: O Imperador Filósofo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2018.

 

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