METEMPSICOSE, REMINISCÊNCIA E MUNDO DAS IDEIAS: INTRODUÇÃO A CONCEITOS NUCLEARES DA FILOSOFIA PLATÔNICA

Por Juliana Vannucchi

“(…) a alma é pois, imortal: renasceu repetidas vezes na existência e contemplou todas as coisas existentes na terra como no Hades e por isso não há nada que ela não conheça (…)” – Trecho extraído de Mênon (Platão).

METEMPSICOSE E REMINISCÊNCIA

Platão compreende que a alma é imortal e que ela ocupa um corpo físico e mortal apenas de maneira provisória. Através de seus escritos, o filósofo sustentou o conceito de “metempsicose”, que é a doutrina segundo a qual a alma transmigra em vários corpos (incluindo animais e vegetais, não apenas humanos) por meio de inúmeras existências. No Fédon, o filósofo grego faz uma separação entre corpo e alma, vendo o primeiro como mortal, mutável e ininteligível. O corpo, repleto de necessidades físicas, é uma prisão opressiva e pesada. A alma, por sua vez, é divina, imutável, eterna, inteligível e existe mesmo antes do nascimento. Além desse dualismo, Platão diz que há almas puras e impuras. As primeiras, quando desencarnam dos corpos físicos, passam a viver eternamente no mundo das ideias. As segundas retornam para o mundo material e, se necessário, repetem o ciclo de reencarnações até se purificarem. Para que uma alma viva na eternidade sem retornar, é preciso que tenha atingido a sabedoria filosófica. Algumas almas podem ter sido virtuosas em vida, mas se não se dedicaram à investigação da filosofia, retornarão no corpo de animais que sejam igualmente virtuosos. Entretanto, aqueles que viveram sem praticar nenhuma virtude e também não se dedicaram à filosofia, reencarnarão como animais selvagens ou suas almas vagarão eternamente sem chegar a lugar algum.

Antes, porém, de uma alma vir para o mundo sensível, ela habita o mundo das ideias, reino ideal em que se encontram as formas perfeitas e abstratas, isto é, as essências eternas que  independem das coisas e do espírito humano. De acordo com Platão, a alma, antes de habitar um corpo físico, contempla essas essências no mundo das ideias e, posteriormente, quando está encarnada, esquece-se do que havia contemplado, embora possa se lembrar do que viu anteriormente. É nesse ponto que surge o conceito de “reminiscência”, pois o conhecimento, para Platão, consiste numa recordação daquilo que já se sabe e que se encontra previamente no íntimo de cada ser encarnado e que pode ser intelectualmente apreendido. Nesse contexto, podemos compreender que quando nos deparamos com modelos variados de algo, como cachorros ou árvores, já carregamos conosco uma espécie de modelo exemplar de tais objetos que possibilitam que nós os reconheçamos. Para Platão, a atividade filosófica faz com que aquilo que foi contemplado seja extraído do interior e retorne à consciência: “Nosso intelecto vai nos devolvendo algumas das coisas que nossa alma conhecia, antes de nascer; aqueles que seguem o caminho da sabedoria podem resgatar plenamente a Verdade que um dia contemplamos e que esquecemos ao vir ao mundo” (BOTELHO, 2015 p. 83).

Tendo como base o Fedro, um dos principais diálogos platônicos, façamos aqui mais alguns apontamentos acerca da natureza da alma. Nesse referido texto, Sócrates propõe buscar compreender a natureza da alma e tece as seguintes observações:

– A alma é imortal (uma vez que possui movimento próprio).
– Automotora (aquilo que se move é o princípio do movimento).
– Um corpo que possui movimento dentro de si é, por conseguinte, o que possui alma.
– A alma assume formas diferentes em diversas ocasiões (metempsicose).
– O ser vivo é um todo que é composto de alma e corpo.

Além das constatações acima, observa-se ainda que a alma é divida em três partes: uma parelha de dois cavalos alados, sendo um de raça nobre e o outro o contrário. O cavalo da direita representa o autocontrole e o pudor. O da esquerda é pesado e insolente. Nesse contexto, Platão explica que a função das asas é “se erguerem para o alto carregando o que é pesado ao lugar onde a raça dos deuses habita” (p.51). Esse local consiste numa região além do céu que só é visível pela inteligência:  “Um intelecto divino, uma vez nutrido pela inteligência e o conhecimento puro, e o intelecto de cada alma capaz de receber o que lhe é apropriado, regozija-se em contemplar a realidade durante um período de tempo, e através de sua observação da verdade é nutrido e tornado feliz até que o movimento circular o recoloque no mesmo lugar”. (p.53). Através dessas palavras,  Platão explica o que já foi exposto acima: as almas contemplam o absoluto, as verdades imutáveis, o eterno, vendo as essências, e não seus reflexos. Porém, as almas possuem visões diferentes dessa região, sendo que as que a contemplaram por mais tempo encarnam no corpo humano de um amante da sabedoria (ou seja, filósofo) ou de um amante da beleza ou da música. As outras almas encarnam das seguintes maneiras, seguindo uma hierarquia:

2. Rei ou Comandante Militar.
3. Político, administrador doméstico ou financista.
4. Um esforçado treinador de atletismo ou médico.
5. Profeta.
6. Poeta ou outro artista de arte imitativa.
7. Artesão ou agricultor.
8. Sofista ou partidário do povo.
9. Tirano.

Vale citar aqui um outro ponto interessante do diálogo: a contemplação que a alma fez terá um reflexo direto no amor, e isso ocorrerá através de um sentido específico (visão), da seguinte forma: ao ver um objeto belo, duas coisas podem ocorrer, dependendo de como foi a observação que a alma fez do mundo das ideias. Para aqueles que admiraram muitas realidades, um jovem belo é reverenciado e admirado, pois ele traz recordações da beleza absoluta, e então, as penas das asas daquele que o observa são irrigadas e aquecidas pelo belo, sendo que a plumagem começa a crescer e, dessa forma, conclui-se que o amor é um estado de alma. Aos que pouco tiveram contato com as formas absolutas, não há a mínima contemplação ou reverência, apenas uma entrega cega ao prazer carnal, à luxúria e à geração de filhos.

De acordo com Platão, as almas também são julgadas após deixarem o corpo: “… ao encerrarem sua primeira vida, são submetidas a julgamento e, uma vez julgadas, algumas partem para os postos correcionais sob a Terra e cumprem sua pena, enquanto as outras, tornadas leves, são erguidas pela justiça a uma região celestial, onde passam a viver de uma maneira digna da vida que viveram sob forma humana”. (p. 56).

O MUNDO DAS IDEIAS

Primeiramente, é importante esclarecer que este tema é tratado em mais de um diálogo platônico e consiste em um dos fundamentos do filósofo. Para entender as razões que possivelmente levaram Platão a desenvolver tal conceito, precisamos resgatar parte do pensamento pré-socrático, tendo como foco especialmente duas propostas feitas por dois pensadores específicos que antecederam Platão: Heráclito e Parmênides. O primeiro, em suas tentativas de buscar elementos que explicassem a natureza, entendeu e afirmou que a realidade que o cercava era aparente, ou seja, estava em constante transformação (devir). Em oposição, Parmênides assegurou que a realidade não se altera e negou a ideia de movimento contínuo da natureza.

O mundo das ideias parece surgir para Platão como um caminho que sintetiza esses embates pré-socráticos. Platão compreende que existem dois planos distintos: o mundo das ideias e o mundo sensível. No primeiro, encontram-se as formas eternas, incorpóreas, invisíveis, reais, eternas, sempre idênticas a si mesmas e que escapam à corrosão do tempo. Trata-se de modelos dos quais as coisas materiais, presentes no mundo sensível, seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias, imutáveis e perecíveis. O trecho a seguir nos ajudará a compreender melhor esses conceitos: “O que é belo ou mais ou menos belo, é belo porque existe um belo pleno, o Belo que, intemporalmente, explica todos os casos e graus particulares de beleza, como a condição sustenta a inteligibilidade do condicionado”.

Nesse sentido, o mundo das ideias é o mundo da episteme (verdades) e o mundo sensível é caracterizado pela doxa (opinião). Isso significa que no primeiro mundo as coisas existem em sua essência e como absolutas, enquanto no segundo apenas existem de maneira aparente, não como realmente são. O mundo sensível é o mundo que apreendemos, que sentimos e que vivemos. Nesse plano existem apenas cópias das formas verdadeiras que se encontram no mundo das ideias. Essas aparências, de acordo com Platão, foram criadas por um Demiurgo, espécie de artesão divino que teria, portanto, montado um mundo imperfeito que copia as formas perfeitas.

Para ilustrar tal pensamento, Platão utilizou-se de uma alegoria que se tornou conhecida como “Alegoria da Caverna” ou “Mundo da Caverna”. Nesse texto metafórico, ele conta que havia uma caverna na qual muitos prisioneiros, desde o nascimento, lá viviam acorrentados. Viam sempre projetadas nas paredes sombras que eram formadas pela luz de uma fogueira e acreditavam que as imagens que elas formavam era a realidade. Mas supõe-se que um dos homens da caverna conseguiu escapar daquele local, saindo assim de tal ambiente. Quando chegou ao mundo externo, a verdadeira luz quase o cegou. Seus olhos doíam, mas ele se adaptou. Logo percebeu que sempre vivera acorrentado numa ilusão que acreditava ser uma verdade absoluta. Lá fora, ele viu os verdadeiros seres cujas imagens projetavam-se de maneira distorcida no interior da caverna. Ele decidiu voltar e partilhar seu conhecimento com os outros homens que ainda estavam acorrentados. No entanto, os homens zombaram dele e não acreditaram em seu relato. Suponha que a caverna seja esta dimensão em que vivemos e que muitas vezes julgamos ser a realidade (mundo sensível). Em contraponto a esse plano de distorções e de sombras, existe uma realidade em si, que seria o mundo das ideias. O Mito da Caverna possui outras interpretações além dessa, mas certamente simboliza muito claramente a base da teoria das ideias.

Referências bibliográficas:

BOTELHO, José. A Odisseia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

PLATÃO. Fedro. São Paulo: Edipro, 2012.

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Edipro, 2012.

PLATÃO. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultura, 1987.

 

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