O CONCEITO DE HISTÓRIA NA FILOSOFIA DE SCHOPENHAUER – INTRODUÇÃO TEMÁTICA

Por Juliana Vannucchi

Χαι φιλοσοφωτερον χαι απονδαιότερον ποίησις

A poesia encerra mais filosofia e elevação do que a história”.

Aristóteles

Em sua obra magma, intitulada “O Mundo Como Vontade e Como Representação”, Arthur Schopenhauer, além de apresentar os pilares de seu sistema filosófico, discorre sobre alguns temas diversos, dentre os quais a história, que se encontra como objeto de reflexão. De modo geral, o filósofo de Danzig reconhece a utilidade da história, mas fazendo uma leitura crítica a seu respeito, questiona-se até que ponto ela pode ser realmente útil.

“A história reconhece tudo imperfeitamente e sempre pela metade”. Arthur Schopenhauer

Em suma, pode-se dizer que as considerações feitas por Arthur Schopenhauer acerca da história acontecem por meio de comparações entre esta e a poesia. Tendo em vista tal analogia, Schopenhauer dirá que a história é um saber que se limita à experiência fenomênica, não podendo ser definida nem como arte e tampouco como ciência, pois o estofo da arte é a Ideia, o da ciência é o conceito e o da história é o individual ou a individualidade: “A história é decerto um saber, mas não uma ciência. Em lugar algum ela conhece o particular por intermédio do universal, mas tem de aprender o particular imediatamente e, por assim dizer, continuar a rastejar no campo da experiência” (SCHOPENHAUER, 2015, p. 528). Ora, como sua filosofia se estende para além dos limites fenomênicos, aqui já é de supor que a história terá um limite bem definido e será inferior às manifestações artísticas. Por sua vez, a poesia, que consiste num grau de objetidade da Vontade, é capaz de alcançar as Ideias metafísicas: “A história tem a verdade do fenômeno, que pode ser neste verificada, a poesia tem a verdade da Ideia, não encontrada em fenômeno particular algum e no entanto exprimindo-se a partir de todos”. (SCHOPENHAUER, 2005, §51, p.323). Schopenhauer também estabelece uma comparação entre história e filosofia, afirmando: “Enquanto a história nos ensina que em cada época existiu algo de diferente, a filosofia empenha-se por fazer-nos alcançar a intelecção de que em todas as épocas sempre existiu, existe e existirá exatamente o mesmo” (SCHOPENHAUER, 2015, p. 530).

Além dessa grande diferença, o filósofo alemão diz que a história apresenta sempre o que há de mais geral no homem e, dessa forma, caracteriza-se por sempre ter dependência de determinadas culturas e localidades. Já a poesia, por sua vez, destina-se ao coração do homem e, assim, é mais universal, abrangente e atemporal, apresentando a humanidade de uma maneira mais sincera, contribuindo mais para o conhecimento de sua essência e sendo mais universal.

Tendo em vista essa comparação central de sua abordagem, Schopenhauer ainda elogia a história que é contada através da poesia, tal como fez Heródoto, cuja obra, em sua totalidade, é um verdadeiro e suficiente estudo sobre a história universal, uma vez que apresenta a ação, o sofrimento, o esforço e o destino do gênero humano. O filósofo também destaca elogiosamente as autobiografias, cujo conteúdo é mais puro e apresenta um veredito, ainda que o próprio autor de uma determinada biografia tenha relatado algo que não é verdadeiro. Outro ponto digno de destaque é que Schopenhauer também tece críticas ao historiador por trabalhar em conformidade com o Estado: “Os novos historiadores, salvo raras exceções, apresentam na maioria das vezes apenas um barril de entulhos e inutilidades, e quando muito uma ação principal de estado… “quem quiser conhecer a humanidade em sua essência interior e idêntica em todos os fenômenos e desenvolvimentos […] as obras dos grandes e imortais poetas fornecerão uma imagem muito mais fiel e distinta do que os historiadores são capazes” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 325)

Além destes apontamentos já feitos, Schopenhauer afirma que a história sempre apresenta mais conhecimentos falsos do que verdadeiros e por mais que seus relatos sejam confiáveis, ela nunca mostra a totalidade de um determinado acontecimento. Ou seja, “a história reconhece tudo imperfeitamente e sempre pela metade”. O historiador deve seguir precisamente os acontecimentos particulares conforme a vida, deve expô-los como eles se desenvolveram no tempo, numa cadeia múltipla e intrincada de fundamentos e consequências; contudo, é impossível que possua todos os dados dela, que tenha visto ou explorado tudo: “(…) eu poderia afirmar que em toda a história se encontra mais o falso que o verdadeiro”. (SCHOPENHAUER, 2005, p.324). Assim, embora Arthur Schopenhauer reconheça o valor dessa área do saber, ele também aponta e destaca sua insuficiência, especialmente quando ela é comparada com as artes.

Referência:

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tradução de: Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2013, 2 vols.

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